POLARIZAÇÃO DA VIDA
Ao que traçamos um panorama histórico e cultural, o aborto mostra-se como uma pratica que tem sido repercutida desde a antiguidade até o hoje. Mulheres de diferentes épocas, idade e costumes que diante de variadas problemáticas recorrem ao que muitas vezes aparece como única solução: interromper a gravidez.
Mas o que acontece é que junto com a prática, perdura também um debate completamente polarizado que se dá por diversos aspectos, sendo de cunho religioso, polÃtico, ético ou qualquer outra variável, que resulta, por vezes, na proibição e criminalização do ato, assim como no custo da vida de mulheres que todos os dias e em todos esses perÃodos históricos, morreram e continuam a morrer durante essa aplicação.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que anualmente mais de 25 milhões de abortos são feitos de modo inseguro e que essa maioria se dá em paÃses pouco desenvolvidos. Alegou, também, que a proibição e criminalização não reduz esse número, só implica na falta de proteção da mulher que o exerce. No Brasil, por exemplo, onde é criminalizado, a segunda edição da intitulada Pesquisa Nacional do Aborto mostrou que no ano de 2015 foram cerca de 500 mil realizações clandestinas.
Isso confere que a prática é uma realidade para milhares e milhares de mulheres que, diante da ilegalidade, continuam a colocar a própria vida em risco. E que, sendo assim, deveria ser encarado como um problema social que as expõe, determina e coloca em perigo. Esperava-se que com o passar do tempo esse embate houvesse evoluÃdo, tendo em vista todo o conhecimento já reunido sobre o assunto. Mas o que se observa é que os discursos sustentados até hoje são oriundos de julgamentos morais que visam somente incriminar e condenar, sem qualquer empatia.
Muito argumenta-se em favor da vida, mas da vida de quem?
O Brasil chega a registrar quatro mortes por dia ocasionadas por abortos clandestinos. E pouco se fala sobre essas vidas. Pouco se importa sobre elas. Sobre suas condições sociais, psicológicas e os demais fatores determinantes que encaminham essa escolha. A problemática do aborto equivale a desigualdade e injustiça social. E deve assim ser encarada. Como uma disfunção da saúde pública.
Em paÃses onde sua pratica é legalizada, por exemplo, o procedimento, que é simples, é feito da maneira correta e com baixÃssimo malefÃcio a saúde da mulher. A OMS chegou a revelar dados que comprovam que nesses lugares, inclusive, o número de casos é extremamente inferior a paÃses no qual a pratica é criminalizada.
O que se precisa é romper com essa polarização da vida.
